domingo, 25 de julho de 2010

Cordão de filé mignon com provolone e stufato giallo



Pra fazer essa maravilha da natureza, você vai precisar de:


1 Kg de cordão de filé mignon
5 dentes de alho
2 cebolas
2 pimentas vermelhas pequenas frescas
500g de provolone
1 copinho pequeno de champingnon
1 Batata-brava (cenoura-branca/mandioca-salsa) média por pessoa
1/4 de pimentão amarelo cortado em tiras finas
Açafrão
Alecrim
Cominho
Ervas finas
Pimenta Jamaica
1 laranja
150 ml de vinho tinto seco

Preparando a carne:
Faça uma vinha d'alhos com o vinho, os 5 dentes de alho espremidos e uma cebola ralada. Coloque também uma colher de chá cheia de cominho, uma colher rasa de sopa de alecrim, uma colher rasa de sopa de ervas finas, duas colheres de sopa de sal e o suco de um limão. Misture bem.
Pra fazer essa receita eu usei um vinho Doña Dominga, um Syrah chileno de 25 reais muito sincero, acastanhado, bem seco. Combinou deveras com a carne, devo dizer.
Pegue os pedaços de carne e elimine somente o excesso de gordura, pois a gordura ajuda a deixar a carne macia e saborosa. Corte o provolone em tiras e coloque por cima do filé, enrolando em seguida. Use palitos de dente para segurar o rolinho. Antes de enrolar, é interessante que você coloque um pouco da vinha d'alhos na parte que virá a ser a parte interna do rolinho; ajuda a temperar.


Enrole vários e coloque num tabuleiro coberto com papel alumínio, molhando bem com o tempero. Deixe marinar, virando de 20 em 20 minutos, por 1h20min aprox.
Cubra a assadeira com papel alumínio bem apertado e leve ao forno médio-alto por 40 minutos.
Retire o tabuleiro, descubra o papel alumínio e vire os rolinhos. Cuidado com o vapor, pelo amor de Deus. À essa altura, vc já deve ter tomado pelo menos metade da garrafa de vinho, sabe como é...
Volte o tabuleiro pro forno e deixe lá por mais uns 20 minutos, só pra tostar. Como cada forno é um caso, use o seu bom senso.

Preparando o stufato:
Cozinhe as batatas-bravas até ficarem macias e despele-as; corte em rodelas. Reserve.
Lamine os champingnons. Reserve.
Corte uma cebola em pedaços pequenos e junte na panela com um pouco de azeite, uma colher de chá de sal, os pimentões em tiras finas e uma colher rasa de sopa de açafrão. Não esquecer das duas pimentas frescas. Eu tenho um pé de pimenta em casa, peguei de lá. Refogue. Quando a cebola começar a murchar, junte o suco de uma laranja e mexa bem, abaixando o fogo, deixando apurar um pouquinho. Junte o champingnon e a batata, mexa um pouco. Adicione meio copo de água e deixe cozinhar em fogo baixíssimo. Quando a água secar e a consistência estiver cremosa, firme, está pronto. Use sal a gosto, pois é um prato que tende a ficar agridoce, pela laranja.

Coma e seja feliz.




segunda-feira, 3 de maio de 2010

Amorzinho

Amor se tem quando perto
e ainda de longe é forte tão bem.
é fofo e é feio, escasso e esgueio
é chuva e é charme; chamando-o, achei-o.

amor não é de sarar.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Perpétuo mais que perfeito

àquela que sabe quem é.

Se é perfeita a sintonia
é amor o que se tem.
Não é como palavra cega
quando não sabe o que diz;
é viver além do tempo
e depois de se exilar
tornar salvo para a casa
com a mão pra apertar
e descobrir que todo o tempo
mesmo séculos, talvez,
de outras vidas já vividas,
nossos choros soluçados,
nossas mentes aguerridas,
novos cantos pedaçados
em sementes de paixão;
despontando em caras ramas
várias rimas, várias chamas
te lambendo ad infinitum
desejando-te uníssono
agregando-te perpétuo
no pretérito e futuro
amar-te-ei,
meu ser feliz, mais-que-perfeito.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Não sei dizer onde vim parar.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A verdadeira lua não cai.

Ao passar o quê, se vai,

retém o que, se fica,

em espelho transmuda o ser.


Tudo aquilo que era novo

ao passar, passando sempre,

o ciclo espaça,

seguindo sóbrio e assomando sensações.


Dali a pouco vem um puto e me chama,

me chama de cético

por ser dialético.


Eu me contento com a fatia que me merece.


À mercê do tempo

e a 20 anos-luz, talvez,

de qualquer infinito azul.

Vagando insólito;

predido como quem,

em uma daquelas escadarias do Nepal

[com seus sete mil degraus]

e onde tudo é muito barato.


Desprendendo-me

a cada passo, de mim mesmo

e ascendendo-me à busca pelo céu

[mesmo que seja um fracasso]

mesmo que não tenha esperanças,

prefiro sofrer à amargura pra depois explodir

em êxtase cósmico transmetafísico.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Belíssimas palavras, meu caro amigo.

O Velho Oeste de Minas e seu angu, feijão e “cover”
Por Guite, editor do selo musical Gravatório. Este é um artigo escrito para a Revista Atellier, um interessante projeto desenvolvido por alunos do último ano do curso de jornalismo da FUNEDI/UEMG.


É quase um clichê dizer que moda/comportamento e a música estão intimamente ligados, se relacionam e se retro-alimentam. Talvez fosse pretensão demais querer responder quem veio primeiro nesta estória: correríamos o grande risco de nos perder num debate do tipo “o ovo ou a galinha”, ou pra quem ainda se lembra, em um efeito “tostines” (“vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais”, lembra?).

Fato é que as relações entre o universo musical e comportamento vão muito mais além de trilhas sonoras para esnobes desfiles de moda e daquele clássico da música adaptado para o jingle do comercial de carros ou do celular. Embora seja difícil precisar, mas é possível afirmar que tais relações já existiam antes da formação de uma indústria robusta de bens culturais, como conhecemos hoje. Se tentarmos apenas remontar o breve século XX, poderemos perceber que as relações entre música e padrões de comportamento são marcados por revezes caracterizados de grandes tensões históricas. Passeando pelo tempo, pela música, pelas modas e pelo mundo, nosso percurso incluirá breves exemplos que podem ilustrar melhor do que trato aqui.

Podemos partir da história do samba, que de música ligada aos batuques e as populações negras periferizadas, vista com preconceito e como manifestação digna de repressão, passou ao gosto das elites brasileiras, identificando a partir da segunda metade do século XX como a música “tipicamente brasileira”. Principalmente amalgamado ao jazz através da bossa-nova, o samba reinventado pelas elites, transformou-se na representação da música brasileira diante da comunidade internacional.

Grosso modo, se fizermos um breve vôo pela história da música norte americana, pode-se perceber que toda a música popular e pop dos Estados Unidos derivou dos comportamentos de “outside of the tracks” (do outro lado dos trilhos), onde os meninos brancos foram buscar a inspiração, as roupas e as remexidas de quadris. Ou seja, do rock n´roll clássico, passando pelo blues, pelo jazz, pelo funk e pela soul music das décadas de 50, 60, 70 e 80, desaguando no Hip Hop e R n´ B, que desde a década de 90 dominam as paradas americanas, toda a música popular norte americana parece ter bebido na cultura dos guetos para chegar ao gosto da elites e dos subúrbios brancos da América. Não quero dizer com isso que toda fagulha de novidade tenha vindo da periferia, nem estou tampouco romantizando a noção de periferia.

Para mim parece inegável que o potencial criativo realmente inovador, em certa medida sempre esteve ligado a uma atitude outsider, que não está obrigatoriamente ligada a uma questão de classes, como pode parecer nos exemplos citados.

Provavelmente a música que conhecemos como punk-rock já fosse tocada desde os finais da década de 60 por bandas americanas e inglesas, mas foi preciso que o Malcolm Maclarem, dono de uma loja de roupas e moda “SEX” nos subúrbios de Londres, tivesse a brilhante idéia de ajudar a reunir e estilizar uma das bandas que se tornou símbolo da estética punk: os Sex Pistols. Malcolm não era um punk, mas criou a onda punk como foi cooptada pela mídia dos finais dos anos 70.

Sempre houve uma fagulha de inovação, frescor e até de subversão nas criações culturais que revolucionaram a música e o comportamento (e, portanto, a moda) durante o século XX. Tais criações sempre estiveram permeadas por uma tensão entre as culturas do underground, de um lado, e o establishment, de outro. Até que um dia as gravadoras e a mídia em geral descobriram que era mais fácil criar um “artista”, do que ter que lidar com as excentricidades e os egos dos reais artistas. Ou até que algumas bandas percebessem que era obviamente mais fácil tocar músicas alheias do que criar suas próprias.

O contexto que vivemos em Divinópolis é impregnado de uma cultura “cover”. Divinópolis sempre se representou como uma Belo Horizonte em miniatura, a começar pela sua “savassinha”. Os artistas daqui também não se pautam por menos. O leitor com certeza perderia de conta, se se atrevesse a contar quantos grupos “cover” e quantos artistas claramente derivativos se encontram na região. Trata-se de uma cultura da reprodução, e que é perpetuada num âmbito mais amplo pelo “jabá” geral em que se encontra a mídia radiofônica e televisiva brasileira.

Isso quer dizer que todo ímpeto de inovação que poderia existir, está sendo gasto numa cultura do macaqueamento da música e da atitude fake imposta pelas grandes mídias. A música e a moda daqui dizem isso: são cópias em massa da “maior moda/banda dos últimos tempos da última semana”. È a confecção genérica transportada em sacolões. Somos um pólo da moda? Somos referência cultural? Duvido!

Mas felizmente a vida inteligente resiste nas redondezas. Se você caro leitor observar bem, vai trombar por aí com artistas honestos realmente empenhados em tecer um trabalho autoral e, em certa medida, original. Posso citar apenas alguns exemplos, correndo o risco e a injustiça de deixar outros tantos de fora: Pedro Flora, Markinho Gomes, Mull, Modal, La Sangria, Aura, Anarkaos, Teto Preto, outros mais consagrados como Jubarba e Gê Lara... enfim. São artistas que guardam pouco em comum, a não ser o fato de investirem naquilo que eles mesmos criaram, e isso faz toda diferença!

Afinal de contas, tendências inovadoras tem que partir de algum lugar, e a “regurgitância” do mundo cover com certeza não nos levará a novos caminhos. Os clássicos do rock ou da música popular não nasceram clássicos. As tendências da moda e do comportamento, muito menos. Foi preciso que a princípio alguém ousasse fazer algo novo, ou no mínimo, diferente da mesmice entediante que vira e mexe assola o mundo.

Guite.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Teo e o relógio.

Deixe estar o tempo
quando é pôr-do-sol
deixe estar, deixe!

Esquece de contar por essa vez, só?

Deixe estar a hora
quando perguntar
se já é tarde, deixe!

Esquece de sentir as engrenagens!

Deixo estar parado
quando ela sorrir
e te abraçar? Deixo?

Por que você não o faz?

Fico no seu pulso
e sinto ele correr.
Sei exatamente
quando o dia vem
pela cor do céu

Eu não conto tempo pra sorrir.

Deixe de me dar sermão,
amigo, só
deixe estar, deixe!

Conte devagar, com paciência.

Eu lhe serei grato
até acabar
a sua longa vida.

E eu vou te levar
para passear
comigo

Seja bom e eu não te deixo
de castigo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ninguém queria, todos quiseram.

— Oi lá!
— Como vai, tudo bem?
— Ah, vamo indo, n'é?
— Pois é, tá sabendo do fim-de-semana? Tô fazendo um evento que mistura DIVERSÃO e CULTURA, a micareta SERTANEJA. A Atração da sexta é o D2, a do sábado é um grupo de tradição. Domingo a gente se reúne pra resenhar em algum lugar, cada um com seu núcleo social.
— Poxa, que evento bacana!

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Bem, se vc é daqueles que não vê diversão no carnaval temporão, com calça tora-bago e chapéu, que dirá de cultura. Vá lá! Todo mundo em cima do trio! Faz parecer que o freguês quer ser mais Goiás que os goianos e mais Bahia que os baianos. Aliás, parecer é bondade. Enquanto isso a gente vai esperando um show diferente, sem ressucitar cadáveres e/ou recorrer ao apelo de misturar diferentes tribos num lugar. Pra mim isso é desculpa. Furada.

De um tempo pra cá dá-se muita importância pro lado comercial. Um cara cria um pássaro pra ser o mais o belo de sua espécie, daí quando ele tá pronto, crescido, vistoso, o cara leva o bicho pra apreciação dos entendidos. Chega lá, solta o bicho na mesa, o primeiro vem e lhe tosa o rabo, o segundo aproveita e tosa o topete, o terceiro estica o pescoço e o enrola um pouco como se tivesse passando uma tesoura no papel para fazer cachos e o quarto aproveita as penas tosadas pra fazer um arranjo na cabeça do bicho. Tudo pra vender melhor. Ninguém quis nem olhar pro pobre pássaro na sua humilde autenticidade e originalidade.

Pior, que se a gente for xingar o Promôter por causo do CULTURA a gente tá errado. Acaba sendo cultura mesmo. A gente tá cansado de ver micareta aqui em MG, rodeio então nem se fala; Eu não nego que sejam um grupo social, com práticas e ações sociais comuns aos membros – que se DIVERTEM realmente em cima do trio – além de crenças, comportamentos, valores morais, instituições e axiomas.

O foda é ter que aguentar essa porra toda sempre, só com roupa diferente.

Quando foi a vez de fazer de Divinópolis uma cidade, lá no comecinho da década de 1910-1920, ninguém queria, todos quiseram.

Pra quem não entendeu a metáfora: por enquanto, transformar arte em evento e associá-los às tags { dinheiro, sucesso, propaganda, expansão } parece uma idéia totalmente inviável aqui no Espírito Santo da Itapecerica. Se, por um acaso remoto, isso vir a ser um sucesso de retorno financeiro, vai chover de jovem querendo ser o dono da porca. Tomara.

Evento por evento, eu prefiro os de arte aos de masturbação sócio-econômica. Pelo menos a gente fica com a sinceridade e autenticidade ao invés de ser o popular de sempre que se consome sem atenção. E que seja arte de qualquer jeito, com viola, guitarra, pincel, filme, foto, sapatilha ou tutu. Cheio de gente querendo mostrar alguma coisa que fatalmente agrada e cheio de personalidade, tão mais cheio de vida e experiência do que a maioria das merdas globais, com algumas exceções, craro.

De tarde, o outono sem sombras. O sol à 95 graus em relação ao Equador deixa tudo quente, muito quente. Vou tocar teclado.

quinta-feira, 12 de março de 2009

SHOW


Show do Sabugosa!
Sexta-feira TREZE de março no PointBeer.
+ Rodrigo Monstro de Formiga

quinta-feira, 5 de março de 2009

Já disse o Quintana [ou será que foi o Bandeira?]:

"É verdadeiramente uma tragédia quando o artista se torna o seu próprio crítico."

né?

terça-feira, 3 de março de 2009

Tempo tempo tempo dia dia dia

Cochise César, que mau humor, dizer que o tempo não se comemora.

Bom, na verdade, o tempo, por si só não tem gosto nem cheiro nem cor. E sendo assim, tenho que concordar contigo. Sob esse ponto, e só.

Quando eu comemoro, além de beber, comer, reclamar, não-comemorar ou ainda anti-comemorar, meu espírito dá um grito animal, e baba um pouco, meio besta. Definitivamente é um marco.

É como uma escada - o espaço entre o anterior e o posterior fica bem delimitado: Degrau.
Pra quem não pode subir escada, inventaram a rampa.

Ou vai ver que foi o contrário, no princípio era rampa e fizeram a escada depois, pois na rampa não havia como sentar e descansar.

Jooooooovem

A juventude, meu amigo
é uma virtude que nos vêm
sem esforço algum, fazer
E eu posso dizer sem perigo
que cuidar da juventude
sendo jovem para sempre
é que dá um trabalhão.
Honrar o contrato
e não ser só mais um
que vive a vida para nada
ouvi, vê, pra tudo tem um.
Ei, Dunga, vai tomar no cu!

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Recebi de um amigo
uma notícia nada mal
nada boa, eu diria,
também, por sinal

Fiquei sem fome de repente
meu coração disparou
refleti por um mormente
instante de desatenção.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Quando eu fizer 10 mil dias.



Dia 17 de outubro de 2011.

Eu não faço mais aniversário
conto meu tempo de dez em dez mil
e quando vai precisar
conto de cinco ou mil só
Vou preparar uma festa
quando o domingo chegar
beber demais
comer demais
viver demais.

Quando eu fazia ANIversário
à cada translação eu vinha à tona
pra respirar um pouquinho
escutar um Neil Young
e me encher de ilusão
pra dar mais uma volta no Sol.


Num domingo, bem no dia do Senhor!
10 mil dias vou fazer
que vou escutar quando acordar?
quem vai saber sou eu
e cada um sabe de si melhor que ninguém.

É tempo bastante pra transformar

o mundo,dez mil canções
Cante uma canção quando acordar
No final das contas,
dez mil dias

são dez mil rotações.








ouvindo Neil Young - Cowgirl in the sand

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A guiar Amanda

Saber todas as canções que se quer
tudo de cor e à cores
coisa de gente dizer
quando se vive, sem dores.

eu gostei quando eu vi
da prima vez já sorri
quis olhar mais um pouquinho e,
preguiçoso que sou
voltei de novo pra ver
teve que ser assim,
demorou, mas eu li.

Tudo.

Agora vou tomar banho
refletindo o texto, pois
não importa se é nova
se é platina, se é estanho
muito mais um vinho à dois.

Sardas,
manchas rosas, pony tail
inda bem que c existe
gente assim não fica triste
conta história pro papel.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O silêncio

Olhos de pôr-do-sol
Cabelos crepusculando
Falava como o silêncio
E o dia foi esquentando
Gente esperando na praça
gente no palco cantando
falantes, como silêncio
Cabelos crepusculando
Encosto.
Encosta também.
Ouve mais uma canção.
É linda. Aposto que tem
um cheiro pra cada estação
quero-te em mim, primavera
pra cantar com violão
Nem me importa o silêncio
Falar não precisa não
No fim eu te enxergo por dentro
Pensamento. Transmissão.
Nunca pensei que era tanto
e agora sempre que eu lembro é mais
Falante como o silêncio
Cabelos crepusculando

Foi tipo morder uma nuvem
Explica talvez
Silêncio se fez
novamente nós mudos
Outra vez.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

domingo, 27 de janeiro de 2008

Ressaca - Luis Fernando Veríssimo

"Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.

Cada porre era um desafio ao céu e às suas feras. E elas vinham: Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais - golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconseqüentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreservação. A cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.

Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, "nunca mais" dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem.

Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam.

Por exemplo:

Um cálice de azeite antes de começar a beber -- O estômago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber.

Tomar um copo de água entre cada copo de bebida -- O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.

Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta -- Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.

Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene -- Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira.

Uma cerveja bem gelada na hora de acordar -- Por alguma razão o método mais popular.

Canja -- Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar, no entanto. Muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos às pressas antes do afogamento.

Minha experiência maior era com a cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no deposito de instrumentos da boate Catito's em Assunção.

A pior ressaca era de gim.

Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.

Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.

Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.

Ressaca de cachaça. Você acordava sem saber como, de pé num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto.

Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para você.

Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia.

Ressaca de conhaque. Você acordava lúcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do universo. A chave de tudo estava no seu cérebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Você sabia que era alucinação, mas por via das dúvidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro.

Hoje não existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e não acontece nada. No dia seguinte estão saudáveis, bem-dispostas e fazem até piadas a respeito.

De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se saúdam em silêncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros caídos e o nosso heroísmo anônimo.

Estivemos no inferno e voltamos, inteiros.

Um brinde.

E um Engov."